terça-feira, 16 de dezembro de 2008

capítulo III

Quem não se emociona com uma criança? Uma com olhos azuis, numa fotografia, de publicidade, de uma qualquer loja de roupa para crianças. E ver crianças a escolher a própria roupa – a vaidade, nas crianças é engraçada – assim como qualquer outro pecado mortal. Todos nos emocionamos, eu inclusive, mas ele não. Figura destoante dum cenário, figurino que passou no casting sem supervisão. Tudo isto para dizer que não estava a fazer nada, e como eu também não estava a nada fazer, e observava-o. Ele pegava e pousava roupa, esperava qualquer coisa.
Esperava aquele avô que, porventura, comprava uma prenda para um neto. Devia ser cego, ou sofrer de uma outra qualquer condicionante que lhe dificultava a visão. Intrigado com tal personagem que escolhia, também, a roupa, desliguei do outro autor, de forma a concentrar-me em pleno no avô.
Era cego, o pobre coitado, mas um cego cheio de massa, provavelmente era cliente habitual, as empregadas conheciam-no, usava uma bengala dourada. Pouco rico era.
O outro, frio, no frio, segui-o quando este saiu, e eu também, já agora porque não?
Lembro-me de ele vendar o cego avô. Esse, que se fosse realmente cego, se passaria a sentir normal, privado de um sentido que não tinha, com esse ponto favorável, uma pessoa que alguém pensava que era possuidora da arte de ver, mas que afinal só consegue o resto tudo muito mais.
Mas ele não era cego e como era óbvio. A um cego pouco importaria uma bengala dourada, dar-se bem com as melhores empregadas – e não falo das mais eficientes - não era cego. Até veria muito bem, melhor que eu.
Eu ia tão comovido com tal situação paradoxal, que não vi o sorriso cúmplice de quem quer ser levado, forçado apenas pelo papel que representa na trama. Não vi.

1 comentário:

Catarina disse...

Caramba.

Não digo mais.

*