terça-feira, 12 de maio de 2009

caprichos

A disfarçada experiência, apresentada pelas rugas de alguém que não as devia ter. As amarguras fluem pelos seus vales, segregando todas as terríveis experiencias que já viveu.
Tudo isto ele viu. Tudo isto ele sentiu, saboreou e concluiu. Aquela criança, a olhar para quem passava peneirando as suas roupas e ignorância. Tinha os olhos dos anjos, o aspecto dos demónios. Caprichos de uma afortunada vida. A personagem sentada num inexistente balde do passeio olhou-o nos olhos.
Apeteceu-lhe agarrar-lhe as mãos, puxá-la para si. Protege-la, ama-la. Dizer-lhe o que era a vida. Que também tinha bons momentos. Partilhar bons momentos com ela. Ser a causa dos bons momentos.
Mas a multidão levou-o. Levou a oportunidade de fazer uma pessoa feliz sendo feliz.
Caprichos de uma afortunada sociedade.
Um carro, cegado pelo sol, invadiu o passeio momentos após ele passar. Depois as pessoas param. Depois todos param. Mas não o deixaram parar. Invadiu o INEM. Ela invadiu o hospital acompanhada com anjos que a levariam para o leito da morte. O mesmo leito onde fluíam amarguras.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

sonhos

O que faremos quando atingirmos o maior dos nossos sonhos?

A terra deseja o céu. O sol deseja a lua. Metáforas impossíveis que descrevem a procura incessante caracterizadora da nossa vida. Lutar é visto como meio mas tomado como objectivo. Resignamo-nos, às vezes, com coisas que valeriam a pena – nunca sabemos, fica sempre o bicho da fruta que nos impele para aquilo que poderia e não para o que poderá – mas corremos, lutamos tentamos os acontecimentos com a probabilidade mais remota. Esta é que nos seduz, motiva. Partimos, frequentemente, em busca de preencher o que julgamos ser um espaço vazio. Nunca pensamos que esse espaço é para estar vazio, e se está cheio do conteúdo próprio, não está vazio, logo não temos de o preencher. Neste caso, estará, o espaço vazio, cheio. Partimos. Voltamos, com mais espaços vazios.Que faremos quando cumprirmos os nossos sonhos? Arranjaremos outros? E esses outros, possuirão, a sua essência no que outrora tivemos, mas do qual abdicamos em detrimento dos sonhos da altura?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

a morte

Era uma vez a morte. A morte era a morte porque toda a sua família o tinha sido e quando o pai morte e a mãe morte se juntaram, acidentalmente, sem querer, geraram uma filha morte. A morte pai e a morte mãe acabaram por morrer, como aliás acontece com todos que estão vivos.
Então, a morte viu-se obrigada a seguir com o negócio da família morte já morta.
Era a única morte que restava de uma linhagem de nobres mortes, uma morte acidental.
Esta morte era acidental mas não era santa. Um dia encontrou uma morte egoísta. Uma daquelas que quer a morte só para ela.
Ora, a morte acidental, acidentalmente, matou a morte egoísta, estragando, desta forma, o auge da vida de qualquer morte egoísta.
Claro que, depois, a morte pediu desculpa, mas ficou sempre aquele rancor entre a morte acidental e o espírito da morte egoísta. Ainda hoje não se falam, embora este lapso tenha sido recompensado, alguns tempos mais tarde, dando a morte acidental, a sua vida para salvar o filho da morte egoísta. A morte passional ficou eternamente grata. Mas não se falam.

Não se falam porque as mortes são todas mudas.

domingo, 22 de março de 2009

electrões

A nossa necessidade de comunicar faz-nos imaginar histórias com mais do que uma pessoa envolvida, duas talvez. E, por isso eram dois. Dois electrões, seguindo rotas definidas, não por eles, mas por um complexo jogo de atracções e repulsões que os guia num fluxo orientado. É este fluxo que me permite, todos os dias, acender uma lâmpada, iluminar a escuridão. Que fariam eles se soubessem daquilo porque são responsáveis?

Ficaram os dois, sozinhos, abandonados no meio do nada. O ambiente reflectia os seus estados de espírito. Contradizendo a vontade de estar ali, revoltavam-se por não terem tido a oportunidade da escolha. Queriam estar, mas angustiava em cada alma a falta de responsabilidade por uma atitude que não tinha sido deles. A problemática que nos consome a alma todos os dias, ela que nos faz hesitar entre o hambúrguer da direita ou o da esquerda, essa que eles não haviam tido, e choravam por ela. Pediam por ela, mesmo quando tudo foi feito de acordo com a vontade de ter os dois espíritos unidos num, de não haver uma sociedade que os influenciassem, que os virassem, um contra o outro, de costas. Porque eles queriam estar um contra o outro. Os seus braços apertando, mantendo a união volátil muito para além das suas forças. Queriam o corpo, desejavam-no. Um corpo, resultado da união de dois outros corpos que sozinhos nada tinham a ver com a situação.
Permaneceram, feitos dois estúpidos adolescentes, cheios de fome de ser adultos mas com a fartura da criança casmurra, que teima, faz birra, senta no chão.
Não foram capazes de fazer a única escolha possível. A única que iria de acordo com ambas vontades. Porque era uma escolha, e eles escolheram.
Escolheram ficar na ignorância um do outro. Não se conhecer. Manter o medo. Á medida que o tempo passa, a hipótese ignorada vai ficando cada vez mais aliciante. O arrependimento cresce de dentro para fora. Mas é de fora a sua origem. O arrependimento e a frustração caminham, juntas, lado a lado com a escolha.
E assim que escolhermos, não olhando para trás, ficará sempre o arrependimento. Frustração. Por fim, memórias.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Sorrisos

O cimo da montanha é desejado por quem vive no sopé, mas é desprezado por quem, por cima, passa, cortando o vento com asas de metal.

Os problemas de que se padece são tudo o que ocupa a mente, tudo o que se vê, a água para o rio. A solução, a sua busca, são a miragem, a água no deserto.
Um sorriso faz, das palavras, quimeras para o coração. Não vivemos de forma a sorrir para as pessoas, mas vivemos a falar para elas. Todas as questões que nos impedem de sorrir uns para os outros são obstáculos a uma vivência em plenitude para o espírito. Os nossos problemas são grandes, enormes para a capacidade que pensamos ter. Maiores do que suportamos. A definição de uma deprimida existência pode revelar-se pela solução tardia de um problema.
Mas a solução é sempre a mesma. Para os meus problemas sou eu. Para os teus problemas és tu.
O espelho mostra-nos a verdade. Mostra quem somos, quem mostramos ser. Não mostra quem pensamos ou proclamamos ser. É duro. Inconveniente, mas não há fuga possível àquilo em que nos tornamos.
O caminho faz-se caminhando, com os olhos postos no caminho por caminhar e não no já caminhado.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Andar de Bicicleta

E, de repente, um vago sopro de vento impede uma folha, cortada e recortada, miserável na sua sorte, de ser atropelada.

A sorte não nasce, constrói-se, merece-se. A cada passo que damos na mais dura das calçadas fazemos pela sorte. A nossa sorte. A sorte que desejamos mas que tememos apenas lutar por alcança-la. Temo não ser capaz. Chegar longe, demasiado longe para voltar, e ficar, como um avião que iria aterrar em terreno hostil porque já não tem combustível para voltar. Mas ela vem, e vai, esperando, como uma mãe paciente que nos vê cair, que aprendamos, que lutemos.
Não saberíamos andar de bicicleta se não volta-se-mos a tentar outra e outra vez. E até vale a pena aquelas quedas, os embaraços em frente do pai e da mãe quando lhe queríamos mostrar que já éramos capazes. Toda a gente sabe andar de bicicleta, uns melhor, outros pior. Mas é um excelente exemplo porque não conheço ninguém que não saiba.
Quando caímos, poderíamos nós considerar um prenúncio de morte e deixar de tentar? Alguém saberia andar de bicicleta se o fizesse?
Perguntar não custa, custa a resposta. Não adianta termos vontade se não soubermos aquilo que realmente desejamos fazer. Manter-nos focados é um pouco difícil quando se começa a analisar aquilo que pode correr mal.
Não custa tentar, é verdade, custa é a frustração de não conseguir. Mas, algum dia, com um fino fio de fé, de “força de querer” - como diz o Eusébio (e eu acabo de citar um jogador de futebol, fantástico), cada um conseguirá construir a sua sorte.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Está correcto

É como por uma folha de jornal por cima de uma poça de um qualquer liquido que nos incomoda e saiu, por acidente, fora do recipiente.

Era uma vez, duas ou três, em que uma menina muito pouco pequenina, em soutien, com tatuagens espalhadas, encafuadas, nas mais invulgares, mas populares partes do corpo.
Essa rapariga, mulher, auto-proclamada, social, vivia no mundo da nova juventude. Tudo preocupa e nada desocupa o lugar de primeira classe a jogos de computador, e não chamava o pai por senhor, nem rezava ao senhor, nem respeitava o professor. Era o extremo externo de uma sociedade que possui a particularidade de viver e respeitar aqueles indolentes que procuram extremos cada vez mais afastados e abastados do meio-termo. Ó sabia contenção, porque não fazerdes menção a esta gente que só desta forma se ganhará forma num adulto corpo com barba no rosto?
Porque é que os rapazes já não querem as querelas por tocar nas mamas delas? Ao invés preferem vê-las na internet, através de um monitor. Continuamos a odiar quem amamos, mas ó doce companhia de brincadeiras, das más maneiras, apenas á mesa pois ainda crianças, depositam em nós um futuro de esperanças.
Como esporos abertos.