E era uma da tarde. Chovia. A pedido de todas as pessoas presentes naquele local, o sol escondera-se. Bondoso, o sol. As nuvens choravam, tristes, solidárias, infectadas pela mesma tristeza que consumia aquele amontoado de guarda-chuvas.
As nuvens, como portadoras de vida – a água é vida, como dizem –, entristecem-se com a morte. Por isso, principalmente no Inverno, fazem por dar um sinal de esperança às pessoas, dar motivos a poetas para metáforas e aumentar o uso de guarda-chuvas. Isto porque já ninguém anda a pé. Todos temos carros. Desta forma, enquanto uns oram para que quem foi chegue ao melhor destino, em casa, sem comer, quem ficou, ora para que as nuvens lhe tragam umas gotas assustadoras para molhar o produto que vendem.
Estes servem, ainda, para mais coisas. Une as pessoas, mostra compaixão. Nem todos temos guarda-chuva. Nem todos nos lembramos dele, porque nem todos precisamos. Mas, nem que possamos ir à chuva, se a companhia for boa debaixo de tecto, porque não?
Era bom que chovesse mais. Certo é que o sol nos despe. Despidos é meio caminho andado. Mas a chuva entristece, força uniões improváveis. Cria laços sentimentais, espirituais. Talvez, por estas razões, se faça a distinção entre o amor de Verão e os outros.